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Que
Oriente, rapaz!
Comentários
sobre o show "Canto em Qualquer Canto", de Ney Matogrosso.
Quatro
pontos cardeais, um violão em cada ponta.
No
meio da rosa dos ventos o intérprete se entrança em múltiplas
cordas, é mamulengo movido por fios de acordes, ao mesmo tempo
que rege a orquestra de sons.
Uma
longa trajetória culmina nesse palco, onde ele já foi bicho
de penas e chifres, cigano coberto por moedas, bandido sedutor,
malandro de botequim, califa de turbante e tantos arquétipos
mais.
Esse
cigano de agora se iluminou de sons e traz para o palco uma
clareira onde dançam luzes, vestido de branco como se rezasse,
reza em canções como se amasse, ama sorrindo como se flutuasse,
flutua numa leveza conquistada passo a passo, colina acima
rumo ao prêmio da visão do panorama que a lucidez descortina.
Nessa
subida reinventa a serenata, recorda sucessos sem nunca ser
o mesmo, devora e é devorado, ajoelha nas cruzes e oitava
sua vibração de luz chegando a um oriente onde navega sentado,
entre acordes que sintetizam cítaras e jazz num arranjo antológico.
Inaugura
inéditas que soam como sempre nossas, usa o olhar como farol,
canta de tudo um pouco numa mistura insólita, num roteiro
feito para inaugurar surpresas a cada passo. Ousa sutilezas
e nos premia com arranjos de ourives, onde os temperos se
fundem numa sonoridade universal.
Lorca
passeia pelo palco nas escalas andaluzas cascateando ousadias.
Fernando Pessoa aplaude na platéia, com Caeiro e Ricardo Reis,
Drummond na penumbra sorri com seu jeito mineiro, Cartola
abençoa tirando o chapéu, ecoam tantos fantasmas ancestrais
quantos rufos, nos corações da platéia imantada. Músicas de
latinidade fina, Andes rarefeitos nos trazendo neves, singelas
melodias de alma lusitana, sapateado chileno em cúmbeas incipientes
e um derramar paraguaio de guaranias sugeridas.
Matogrosso
ali, não em terra bruta mas em seiva, em memórias alquimizadas.
Jóia
cascateia angústias magistrais em suas cordas.
A
viola caipira soa grave e ponteia familiares temperos, traz
catiras e modas, outros Brasis se delineiam. Contrapontos
em 7 cordas chorando carioquices, rocks e blues nas guitarras
precisas de Ricardo.
Há
uma sinfonia sugerida ali latente, ecos de violinos e cellos
no encontro de acordes, baixos ressoando vigorosos, tambores
que repicam, sementes de sons que a imaginação rega.
Difícil
falar de momentos, pois todos as canções são especiais e únicas,
facetas de um mesmo prisma, cada gesto parte de um bailado,
coreografia exata para emoções tantas, cada luz colorindo
nas auras a confirmação dos murmúrios mais secretos.
Das
canções que não conhecia ainda escuto a que abre, convidativa,
mais uma que fala da vida que quero ouvir de novo, outra que
denuncia, olhos terríveis que acusam, mais outra ainda que
é pura poesia, todas belas.
Das
já conhecidas o gosto foi redescobri-las em novos ouvidos,
com o requinte na alegria de autora em um Bandolero cavalgado
e um Fala derradeiro, ouvindo a platéia cantar numa só voz,
como se rezasse.
No
cantor, rosto, olhos, voz, mãos e corpo são uma só coisa,
interpretando como se inventasse, modulando timbres para realçar
matizes, gritos e sussurros sempre que preciso, para delinear
o relevo das emoções que conduzem a manada.
Canta
pelos olhos e fala pelos gestos.
Mãos
no silêncio expressam como se gritasse.
Quando
cala é como se continuasse, pela rua afora, noite adentro.
Ilumina
ainda esse meu dia em que digito palmas a cada palavra, uma
a uma se somando e formando o aplauso que em mim não cessa.
Como
cachoeira jorrando forte, lavando tudo que não seja arte.
Nada
de mais ou de menos, o ponto exato.
A
hora certa.
O
momento inteiro.
A
magia plena.
Dessa
vez, Ney veio para o palco e trouxe o sol.
LUHLI
Canecão, Rio de Janeiro, 20/1/2006
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